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Ondas de Choque Radiais na Espasticidade: Evidência Clínica em Paralisia Cerebral

paralisia cerebral

A terapia por ondas de choque extracorpóreas (ESWT) é amplamente utilizada em reabilitação musculoesquelética, especialmente em tendinopatias, dor crônica e lesões de tecidos moles. Nos últimos anos, porém, estudos têm demonstrado que a modalidade radial (rESWT) também exerce efeitos importantes sobre o tônus muscular, tornando-se uma ferramenta relevante em contextos neurológicos.

Entre esses estudos, destaca-se o ensaio clínico randomizado e controlado por placebo de Vidal et al. (2011), publicado na revista NeuroRehabilitation. Trata-se de um dos primeiros estudos controlados a demonstrar a eficácia da rESWT na redução da espasticidade em pacientes com paralisia cerebral.

A seguir, apresentamos uma análise clara e detalhada desse trabalho e suas implicações práticas para profissionais que utilizam ondas de choque em reabilitação.

Objetivo do estudo

O estudo teve como objetivo avaliar a eficácia e segurança da terapia por ondas de choque radiais na redução da espasticidade em indivíduos com paralisia cerebral espástica, condição que se caracteriza por rigidez muscular, limitação de movimento e prejuízo funcional significativo.

Participantes e metodologia

Participaram do estudo:

  • 15 pacientes com paralisia cerebral, entre 10 e 46 anos.
  • 40 músculos espásticos avaliados.
  • Três sessões de rESWT realizadas uma vez por semana.

Os participantes foram divididos em três grupos:

  1. rESWT aplicada no músculo espástico.
  2. rESWT aplicada no músculo espástico e no antagonista.
  3. Placebo (aplicação simulada).

As avaliações incluíram:

  • Escala de Ashworth (para medir espasticidade).
  • Amplitude de movimento (ROM).

As medidas foram realizadas antes do tratamento, durante o protocolo e até dois meses após a última sessão.

Resultados principais

O estudo mostrou efeitos clínicos relevantes:

  • Redução significativa da espasticidade nos grupos tratados com rESWT, comprovada pela diminuição da pontuação na escala de Ashworth.
  • Aumento da amplitude de movimento dos músculos tratados.
  • Manutenção dos resultados por pelo menos dois meses após o término das sessões.
  • Ausência de qualquer melhora no grupo placebo, reforçando a eficácia do tratamento.
  • Ausência de efeitos adversos relevantes.

Esses resultados demonstram que poucas sessões de rESWT foram suficientes para produzir melhora funcional sustentada em um quadro neuromuscular complexo como a paralisia cerebral.

Mecanismo de ação provável

Embora o estudo não tenha detectado alterações nos reflexos espinhais, os autores sugerem que a rESWT atua principalmente nos componentes musculares e miofasciais responsáveis por grande parte da espasticidade não reflexa.

Os efeitos incluem melhora de:

  • Rigidez e densidade muscular.
  • Fibrose intramuscular.
  • Elasticidade tecidual.
  • Mobilidade funcional.

Essa interpretação está alinhada com observações clínicas e outros estudos que mostram que a onda de choque radial modifica o comportamento mecânico do tecido, favorecendo destensionamento muscular, remodelação estrutural e ganho de movimento.

Por que esse estudo é importante

Este ensaio clínico é relevante porque:

  • Possui desenho metodológico robusto (randomizado e placebo-controlado).
  • Utiliza poucas sessões, o que reflete a prática clínica real.
  • Mostra resultados sustentados por semanas.
  • Demonstra que a modalidade radial, e não apenas a focal, tem efeitos neuromoduladores relevantes.
  • Amplia o escopo terapêutico da rESWT para além da ortopedia.

Esses fatores tornam o estudo particularmente útil para profissionais que trabalham com reabilitação neurológica, fisioterapia funcional e manejo da espasticidade.

Implicações para o uso clínico da rESWT

A tecnologia utilizada no estudo corresponde aos princípios da onda de choque radial pneumática moderna: pressões baixas e moderadas, frequências ajustáveis e distribuição radial da energia, ideal para músculos superficiais e regiões com hipertonia.

Na prática clínica, isso significa que a rESWT pode ser incorporada como ferramenta complementar em tratamentos de:

  • Paralisia cerebral.
  • Espasticidade pós-AVC.
  • Esclerose múltipla.
  • Rigidez muscular crônica.
  • Distúrbios neuromotores que envolvem encurtamentos e restrição funcional.

Seu caráter não invasivo, seguro e de aplicação rápida reforça sua utilidade em protocolos multidisciplinares de reabilitação.

Conclusão

O estudo de Vidal et al. (2011) fornece evidência sólida de que a terapia por ondas de choque radiais reduz a espasticidade, melhora a amplitude de movimento e oferece benefícios duradouros em pacientes com paralisia cerebral. Trata-se de uma das bases científicas mais relevantes para a aplicação da rESWT em reabilitação neurológica.

Profissionais que atuam com reabilitação física podem se beneficiar de uma ferramenta adicional, segura e suportada por evidências, capaz de ampliar resultados terapêuticos e oferecer ganhos significativos de mobilidade e funcionalidade aos pacientes.

Referência

VIDAL, X.; MORRAL, A.; COSTA, L.; TUR, M. Radial extracorporeal shock wave therapy (rESWT) in the treatment of spasticity in cerebral palsy: a randomized, placebo-controlled clinical trial. NeuroRehabilitation, v. 29, n. 4, p. 413–419, 2011. doi:10.3233/NRE-2011-0720.

https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.3233/NRE-2011-0720

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